
A memória tem meandros muito curiosos! Bastou ouvir: – Não podem sair de casa! Fiquem em casa! – para ela acordar, estremecer e levantar-se, sonolenta, sacudir o pó e trazer à superfície das lembranças os farrapos de vida passada que já estavam sepultados na poeira do espírito.
Vem isto a propósito das quarentenas passadas que apenas no calendário litúrgico têm 40 dias. Na laicidade da vida, as quarentenas podem ter qualquer duração. M mas são sempre “suspensões” da normalidade da vida.
Acordadas pelos gritos de – “fiquem em casa! – levantaram-se as nmemória das quarentenas que, a partir de setenta e quatro e setenta e cinco, pontearam a nossa vida na “velha” cidade de Luanda.
As primeiras quarentenas nem precisaram de ordem para “ficar em casa”! Foram recolhimentos instintivos determinados pelas convulsões sociais que, a partir de Junho de 1974, foram abalando ciclicamente a “nossa” cidade. Uma vezes, eram as “manifs”; outras, as greves; na maior parte dos casos, os confrontos militares iniciais de uma confrontação que havia de durar cerca de 30 anos!
Nessa época morávamos no oitavo andar de um prédio, bem perto do cruzamento da antiga Avenida dos Combatentes com a D. João II. No piso térreo, uma excelente pastelaria, A Riviera, onde comprávamos o pão e os bolos para os nossos lanches quarentenais. Em frente, no lado oposto da avenida, um belo restaurante, o Palladium, onde o nosso vizinho e amigo Luís Baceira ia buscar “finos” num jarro de água, quando já não havia cerveja em garrafa, mas ainda abundava em barris! No mesmo quarteirão, um pouco mais abaixo, a boa Cervejaria Mónaco, onde, nos dias em que era possível, almoçávamos ou lanchávamos.
Quando as “confusões” começavam, interrompiamos as actividades “normais, encerrávamo-nos em casa e, pela rádio, pelo telefone ou pela janela íamos seguindo as ocorrências da vida citadina.
Nos primeiros tempos ainda havia comida e os tiros ainda ecoavam de forma esporádica e, para lá da curiosidade de saber o que os originava, não tinham o mínimo significado e a sua influência nas nossas vidas era tão esporádica como a sua ocorrência.
Passada a confusão, tudo regressava à normalidade. Eram quarentenas de curta duração!…
Nessa curtas quarentenas, a São fazia uma verdadeira sopa para todos. Lembro-me de um dia, em que ela, depois de ter feito uma verdadeira “sopa à lavrador”, daquelas onde a colher se, colocada no prato, se mantinha de pé, comentou: – Hoje fiz uma sopa para o Fernando “não botar defeito”!…
Nós ríamo-nos porque o Fernando gostava dessas sopas, opulentas, fartas de leguminosas e verduras… Nada de cremes, nem de consomés!… Mas o melhor ainda estava para vir. À hora de jantar, sentámo-nos todos e comemos a bela sopa da São sem qualquer comentário. Mas ela, insatisfeita pela desfaçatez e da falta de gentileza dos comilões que deglutiram a sopa sem o menor elogio, provocou o Fernando: – Oh, Fernando! Então a minha sopa hoje estava boa, não!?.. E o Fernando Milheiro, para espanto de todos o gargalhada geral, disse: – É verdade, São! Só faltavam mais uma “coivinhas”!…
Essas foram as belas quarentenas com a tardes e as noites, até alta madrugada, eram ocupadas pelos dois vícios maiores: o King e o Monopólio. Eu e o Luís, – para grande irritação do Raúl e incrédulo espanto do contabilista da Gadil (de que já me não recordo o nome!) – à custa de batota constante e colaborativa, ganhávamos sempre!…
Mais tarde, quando alguns dos nossos companheiros de quarentena já se tinham transformado em “retornados”, o jogo mudou e a vítima também! Como o “velho” Baceira só sabia jogar “às damas” esse passou a ser o nosso entretenimento. E a vítima, para sua gande irritação, passou a ser ele!,,,
Belas quarentenas, em que se não podia sair de casa, mas se mantinha o contacto social!…
Com o passar do tempo e o evoluir da situação política, as quarentenas passaram a durar cada vez mais e, no final do primeiro trimestre de 1975, passámos a ter quarentena permanente! A “greve dos professores” e a luta contra o Jerónimo Wanga, deixou o sistema escolar “de pantanas” e as escolas vazias!
Às greves e à agitação social acresceram os confrontos militares cada vez mais ferozes. Primeiro, dentro do MPLA – Neto contra Chipenda (Revolta do Leste). Depois, o confronto – esse a valer! – entre o MPLA e a FNLA! Finalmente, o embate entre o MPLA e a UNITA, cuja delegação central estava no prédio mesmo ao lado do nosso!
Nos meses imediamente antes e depois da independência, a confrontação militar subiu de tom. Começaram a escassear os bens alimentares e os outros. A começar pela electricidade, passando pelo gás e terminando na água que, por anos, deixou de correr normalmente nas nossas torneiras!…
Tinha-se iniciado um nova quarentena! Uma quarentena longa (durou quase trinta anos!…) difícil, e crescentemente mortífera!
Felizmente, nós, ao contrário de muitos outros, fomos dos que puderam interrompê-la e que, hoje, cá continuam a lembrar-se de tempos em que a solidariedade e a entreajuda foram as ferramentas básicas da sobrevivência!


