A memória das minhas quarentenas

Luanda – a antiga Avenidas dos Combatentes em 2019)

A memória tem meandros muito curiosos! Bastou ouvir: – Não podem sair de casa! Fiquem em casa! – para ela acordar, estremecer e levantar-se, sonolenta, sacudir o pó e trazer à superfície das lembranças os farrapos de vida passada que já estavam sepultados na poeira do espírito.

Vem isto a propósito das quarentenas passadas que apenas no calendário litúrgico têm 40 dias. Na laicidade da vida, as quarentenas podem ter qualquer duração. M mas são sempre “suspensões” da normalidade da vida.

Acordadas pelos gritos de – “fiquem em casa! – levantaram-se as nmemória das quarentenas que, a partir de setenta e quatro e setenta e cinco, pontearam a nossa vida na “velha” cidade de Luanda.

As primeiras quarentenas nem precisaram de ordem para “ficar em casa”! Foram recolhimentos instintivos determinados pelas convulsões sociais que, a partir de Junho de 1974, foram abalando ciclicamente a “nossa” cidade. Uma vezes, eram as “manifs”; outras, as greves; na maior parte dos casos, os confrontos militares iniciais de uma confrontação que havia de durar cerca de 30 anos!

Nessa época morávamos no oitavo andar de um prédio, bem perto do cruzamento da antiga Avenida dos Combatentes com a D. João II. No piso térreo, uma excelente pastelaria, A Riviera, onde comprávamos o pão e os bolos para os nossos lanches quarentenais.   Em frente, no lado oposto da avenida, um belo restaurante, o Palladium, onde o nosso vizinho e amigo Luís Baceira ia buscar “finos” num jarro de água, quando já não havia cerveja em garrafa, mas ainda abundava em barris! No mesmo quarteirão, um pouco mais abaixo, a boa Cervejaria Mónaco, onde, nos dias em que era possível, almoçávamos ou lanchávamos.  

Quando as “confusões” começavam, interrompiamos as actividades “normais, encerrávamo-nos em casa e, pela rádio, pelo telefone ou pela janela íamos seguindo as ocorrências da vida citadina.

Nos primeiros tempos ainda havia comida e os tiros ainda ecoavam de forma esporádica e, para lá da curiosidade de saber o que os originava, não tinham o mínimo significado e a sua influência nas nossas vidas era tão esporádica como a sua ocorrência.

Passada a confusão, tudo regressava à normalidade. Eram quarentenas de curta duração!…

Nessa curtas quarentenas, a São fazia uma verdadeira sopa para todos. Lembro-me de um dia, em que ela, depois de ter feito uma verdadeira “sopa à lavrador”, daquelas onde a colher se, colocada no prato, se mantinha de pé, comentou: – Hoje fiz uma sopa para o Fernando “não botar defeito”!…

Nós ríamo-nos porque o Fernando gostava dessas sopas, opulentas, fartas de leguminosas e verduras… Nada de cremes, nem de consomés!… Mas o melhor ainda estava para vir. À hora de jantar, sentámo-nos todos e comemos a bela sopa da São sem qualquer comentário. Mas ela, insatisfeita pela desfaçatez e da falta de gentileza dos comilões que deglutiram a sopa sem o menor elogio, provocou o Fernando: – Oh, Fernando! Então a minha sopa hoje estava boa, não!?.. E o Fernando Milheiro, para espanto de todos o gargalhada geral, disse: – É verdade, São! Só faltavam mais uma “coivinhas”!…

Essas foram as belas quarentenas com a tardes e as noites, até alta madrugada, eram ocupadas pelos dois vícios maiores: o King e o Monopólio. Eu e o Luís, – para grande irritação do Raúl e incrédulo espanto do contabilista da Gadil (de que já me não recordo o nome!) – à custa de batota constante e colaborativa, ganhávamos sempre!…

Mais tarde, quando alguns dos nossos companheiros de quarentena já se tinham transformado em “retornados”, o jogo mudou e a vítima também! Como o “velho” Baceira só sabia jogar “às damas” esse passou a ser o nosso entretenimento. E a vítima, para sua gande irritação, passou a ser ele!,,,

Belas quarentenas, em que se não podia sair de casa, mas se mantinha o contacto social!…

Com o passar do tempo e o evoluir da situação política, as quarentenas passaram a durar cada vez mais e, no final do primeiro trimestre de 1975, passámos a ter quarentena permanente! A “greve dos professores” e a luta contra o Jerónimo Wanga, deixou o sistema escolar “de pantanas” e as escolas vazias!

Às greves e à agitação social acresceram os confrontos militares cada vez mais ferozes. Primeiro, dentro do MPLA – Neto contra Chipenda (Revolta do Leste). Depois, o confronto – esse a valer! –  entre o MPLA e a FNLA! Finalmente, o embate entre o MPLA e a UNITA, cuja delegação central estava no prédio mesmo ao lado do nosso!

Nos meses imediamente antes e depois da independência, a confrontação militar subiu de tom. Começaram a escassear os bens alimentares e os outros. A começar pela electricidade, passando pelo gás e terminando na água que, por anos, deixou de correr normalmente nas nossas torneiras!…

Tinha-se iniciado um nova quarentena! Uma quarentena longa (durou quase trinta anos!…) difícil, e crescentemente mortífera!

Felizmente, nós, ao contrário de muitos outros, fomos dos que puderam interrompê-la e que, hoje, cá continuam a lembrar-se de tempos em que a solidariedade e a entreajuda foram as ferramentas básicas da sobrevivência!  

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REGRESSO AO PASSADO ou Portugal com “cheiro” a Angola

Nos últimos dias fiquei fechado em casa, mas hoje fui comprar comida para os meus cães.

Sim, porque eu, como diz a minha mulher, os nossos cinco cães são os “mais felizes do mundo”!… É. Não sabem o que é coleira, trela, confinamento de espaço ou repressão higiénica. Por isso são animais felizes. Mas comem!…

Foi por isso que tive que ignorar as recomendações “costianas” para ir ao supermercado e comprar ração para os bichos.

No primeiro, onde costumo abastecer-me, fila com dezenas de pessoas , cara de caso e expressão de incredulidade, olhando para o parceiro, com ar desconfiado, tentando perscrutar o seu interior para saber se seriam um eventual “contaminador” ou apenas um adversário na guerra pelos rolos de papel higiénico!…

Claro que nem parei. Segui para a segunda opção, mas também aí o panorama não era diferente! Rumei à terceira possibilidade: o mesmo panorama! À quarta, – viva! – lá encontrei um supermercado que não tinha fila à entrada!

Entrei e fui olhando para as prateleiras. Na prateleira das massas… quatro ou cinco pacotes perdidos na dimensão agora exagerada para a exiguidade dos produtos expostos. O mesmo panorama nas prateleiras dos enlatados, do papel e outros produtos de higiene pessoal…

No talho, de vitrinas e expositores vazios, dois funcionários, sem carne nem clientes, preenchiam o tempo limpando o que já estava limpo!

Tudo isto me faz voltar quarenta anos atrás, aos tempos da Angola recém independente onde falta tudo, menos a imaginação para “inventar” soluções de sobrevivência. Rebobinei a fita do tempo e encontrei as memórias de tempos muito mais difíceis que os do presente coronavirus.

E lembrei-me dos poucos supermercados que sobreviveram à debandada da pré-independência. Do aspecto assustador do seu interior, filas e filas de prateleiras invariavelmente vazias ou preenchidas com todos os “monos” que, para pintar um visual mais agradável, tinham sido resgatados dos esconsos mais profundos dos armazéns e faziam agora figura de mercadoria de luxo a enfeitar prateleiras!…

Lembrei-me dos meses e meses sem “ver” carne, dos talhos com balcões brilhantes na nudez do seu aço inoxidável, das farmácias onde nem sequer valia a pena “fazer bicha” porque os medicamentos há muito que tinham emigrado. e dos prodígios de imaginação e de solidariedade que era necessário fazer para garantir uma alimentação minimamente saudável às três crianças cuja única culpa era terem uns pais “irresponsáveis” que quiseram “ver nascer uma nação” que julgavam sua e ajudar a construí-la sem dar muita importância aos tormentos do quotidiano.

Lembrei-me também dos meses e meses de almoços de ementa sempre igual, invariavelmente preenchida com o inevitável “dia-a-dia na cidade”, o peixe espada frito com arroz! Se houvesse alguma justiça na construção dos monumentos comemorativos, o peixe espada, o “cinturão das FAPLA”, merecia um monumento esplendoroso, num lugar central da capital angolana, tomando o lugar de uma daquelas inestéticas “torres” de exibicionismo novo-riquista que por lá desfeiam a velha urbe!

Mas lembrei-me também e sobretudo das famosas “bichas” à porta de tudo o que tivesse aparência de loja onde pudesse aparecer “qualquer coisa” que se pudesse colocar na panela. Formavam-se a partir das primeiras horas da madrugada (4, 5 da manhã…) sempre que o “boca-a-boca” informasse que aí “ia sair” qualquer coisa!… Integravam-na maioritariamente mulheres, de todas as formas, cores e idiossincracias, irmanadas “democraticamente” pelo instinto de sobrevivência! Pelo meio, algumas pedras (literalmente) que representavam e substituíam a proprietária que, entretanto, marcava presença numa outra “bicha” de alguma loja próxima!…

Finalmente, veio-me à memória a imagem do ODP que, à catanada, esforçada e violentamente, tentava pôr alguma ordem no tsunami de gente que tentava ser o primeiro a chegar às prateleiras episodicamente “enfeitadas” com qualquer coisa!

Ao ver as filas à porta dos supermercados, o Portugal 2020 “cheirou-me” a Angola dos anos oitenta!…

Espero sinceramente que nunca se passe do “cheiro”… e das “bichas” pequenas e organizadinhas!…

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ALENQUER – MOINHOS DE ÁGUA e Moinhos de vento

Actualmente, quando em qualquer ponto do concelho de Alenquer, se fala de moinhos, entende-se, invariavelmente, que estamos a referir-nos a moinhos de vento.
De facto, das velhas estruturas técnicas de moagem, são eles praticamente os únicos sobreviventes. Mas, nem sempre foi assim: no país, no oeste e no concelho de Alenquer.
Uma relíquia com que hoje me deparei, demonstra-o sem equívoco possível.
Nas minhas “escavações” à cata do “passado perdido”, encontrei uma pequena relíquia: um velho livro de leitura da 3ª classe, datado de 1947, em 85ª edição!
Não consegui saber em que data terá sido impressa a primeira, mas, por certo, muitos anos atrás!…
Nesse livro, uma das leituras, tem por título “O moinho”.
E não é um moinho de vento! É um velho moinho de água que durante longos séculos, em todas as regiões do país, transformou o grão em farinha e alimentou as bocas da nossa gente.

O lançamento da ideia de uma candidatura dos moinhos do Oeste a Património Mundial tem feito surgir inúmeras publicações (nas redes sociais) que, por regra, se confinam a um aspecto de mera fruição estética da imagem do moinho de vento.
É evidente que, pela localização, pela arquitectura, pela paisagem onde se inserem, os moinhos de vento são objectos belos e muito atractivos.
Contudo, reduzir à fruição deste elementos patrimoniais à sua inquestionável beleza plástica, é amputá-los de todo o significado cultural que poderá conduzir esta potencial candidatura a bom termo.
Por outro lado, um outro aspecto importante a ter em conta, é a sua inserção não apenas no contexto de vida das populações a que serviram, mas no meio tecnológico existente com função idêntica: em competição ou em conjunção.
Vem isto a propósito da existência e do papel dos moinhos de água no concelho de Alenquer.
Embora, hoje, as pequenas linhas de água do concelho sejam de uma exiguidades de águas tal que se torna difícil imaginá-las a fornecer energia suficiente para mover a roda de um moinho, nem sempre foi assim!
Importa, portanto, numa óptica de conhecimento, conservação e fruição do nosso património comum, não esquecer nem escamotear esta realidade.

Leituras, Ensino primário elementar, III Classe, 1947, pgs 84-85

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FESTA(s) NA ALDEIA(s)

O mês de Agosto é o mês das “festas de aldeia”.

Duas condições fundamentais, coincidentes nesse mês, sustentam este fenómeno.

Em primeiro lugar, ao contrário do que acontece durante os outros meses do ano, as aldeias estão cheias de gente e de vida!

Depois, a tradição impõe algumas “obrigações” sociais como sejam o “encontro de família” e o reacender de um sentimento identitário que, lá no fundo, apesar das tintas frágeis duma enganadora modernidade cosmopolita, continua a sobreviver nas almas simples dos “velhos” emigrantes, eterna e visceralmente rurais.

Como dizia um amigo que, para sua grande frustração, tinha nascido na cidade de Lisboa, também eu, pelas contingências da vida, “não tenho terra“! A não ser uma “terra” adoptiva (a que chamo minha!) onde, a cada ano, regresso “para a festa”!

Ir à festa significa rever familiares desaparecidos durante todo o ano… significa ouvir aquela música execrável cantada (?!) por “artistas” que ninguém conhece… significa empanturrar-se com “aquele prato típico” que, por tradição, tem que integrar a ementa festiva… significa, enfim, assistir a uma procissão triste e pindérica onde impera a desorganização e os sentimentos mais obsoletos de uma espiritualidade feiticista e mágica!

Apesar de reconhecer que “ir à festa” é mergulhar num universo cultural de um obscurantismo completamente anacrónico… não sei porquê, mas continuo a ir!…

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